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Treino de Força na preparação para corrida: Ciência ou Mito

Ao longo deste tempo tem-se assistido a um aumento do número de praticantes, que, de uma forma regular, utilizam a corrida como principal método de treino para melhorar a sua performance. 

Curiosamente, alguns entusiastas da corrida iniciam esta modalidade como forma de alcançar os mais variados objetivos. Sem nunca se questionarem se a parte neuromuscular está otimizada para tal complexa ação motora. 

  • Será relevante dar uma maior importância à nossa estrutura neuro-musculo-articular, antes de iniciar a corrida? 

Enquanto atividade motora, a corrida implica não só gestão e controlo dessa motricidade por parte do sistema nervoso central, de modo a deslocar o corpo no espaço, mas também a capacidade dos sistemas energéticos em darem suporte às diferentes demandas requeridas para consubstanciar essa relação mecânica. No entanto, o esquecimento do estímulo da componente de controlo da motricidade, determinada pelo Sistema Nervoso Central e Sistema Músculo-Esquelético pode provocar uma perda da integridade músculo-esquelética, ou seja, lesão. 

Neste artigo gostaria de esclarecer a importância do treino de força muscular (que designaremos por estimulação/otimização) enquanto capacidade motora fundamental para qualquer praticante da corrida. Irei fazer uma análise qualitativa, nomeadamente o que reporta a necessidade da capacidade do sistema neuro-musculo-articular em tolerar as forças envolvidas no movimento de correr. 

O que é a FORÇA? É um agente de mudança que empurra/puxa um corpo noutro. No exercício chamaremos resistência.  

Do ponto de vista da biomecânica, a Forca = massa X aceleração. 

Como mencionado anteriormente a análise das forças que entram no meu corpo aquando o movimento de corrida, isto é, desequilíbrio do meu esqueleto para a frente (acelerar os meus segmentos 1ª lei de Newton – lei da inércia) e o contacto do meu pé com o solo (tolerar impactos induzidos em cada passada - 2ª e 3ª lei de Newton (lei da aceleração e lei da ação-reação). Assim, correr é física a acontecer e implica a gestão das forças externas a entrar no meu corpo e a gestão que os meus músculos fazem ao contrair (controlo das forças internas) de forma a tolerar as forças de impacto induzidas em cada passada. 

“A física é um dos principais fatores que determinará o potencial de resposta muscular” (Lucal Leal e col) 

Portanto, treinar para correr implica treinar o corpo, isto é, otimizar os músculos de forma a tolerar este jogo de forças. 

Decididamente as razões que levam o praticante a descurar o treino de força, num processo de preparação para a corrida são geralmente as seguintes: 

  1. Treinar força encurta músculos, portanto reduz a performance; 
  2. Treinar força retira tempo à prática especifica de corrida, portanto não é determinante; 
  3. Treinar força torna o praticante mais lento; 
  4. Treinar força induz hipertrofia muscular, portanto antagónico ao morfotipo do corredor; 

Todas as afirmações são normalmente resultado de crenças e ideias generalizadas sobre prescrição e monitorização do treino inadequadas e afastadas do rigor científico, que merece uma prática motora que pode ser lesiva para o corpo.  

Estimular/otimizar os tecidos musculares respeitando a individualidade, isto é, adequados à fisiologia do corpo neuro-musculo-articular, possibilitará melhor contrabilidade muscular, como tal melhor controlo do movimento, melhor capacidade de gerar tensão ao longo de determinadas posições articulares, controlo dos eixos articulares ao longo de cada passada, de forma a garantir que possam acontecer com o mínimo dano à integridade articular. "Os músculos servem funções de mobilidade através de produção de força ou controlo do movimento de um segmento ósseo em torno de um eixo… servem funções de estabilidade resistindo ao movimento indesejado das superfícies articulares a aproximando as mesmas". (Levangie e Norkin) 

Como podemos constatar a função dos nossos músculos é gerar força, puxar as inserções e controlar as articulações. 

Quanto ao treino de força em praticantes de corrida e agora que foram esclarecidos de forma concisa e científica sobre a importância da estimulação/otimização da contração muscular, vamos tentar desmistificar os pontos referidos anteriormente: 

  • O treino da estimulação/otimização da contração muscular permitirá nas diferentes posições articulares o controlo voluntário do praticante, portanto mais estabilidade e melhor mobilidade; 
  • O treino da estimulação/otimização da contração muscular de forma gradativa (aumentando as exigências sobre o tecido muscular) induz alterações metabólicas e estruturais locais que evolui para melhorias sistémicas, nomeadamente sobre o sistema cardiovascular; 
  • O treino de estimulação/otimização muscular não provoca “encurtamento” dos tecidos. A realidade neurofisiológica diz-nos que os mecanismos que regulam a mobilidade articular dependem em grande medida da QUALIDADE da INFORMAÇÃO que chega e parte do Sistema Nervoso Central, informação essa que chega aos sensores articulares e musculares, através da aplicação de “forças” no corpo.  
  • A estimulação/otimização não torna o praticante mais lento. A velocidade depende de fatores genéticos, mecânicos e de habilidade específica.  
  • A força muscular é comum a qualquer tecido saudável e um dos coadjuvantes à hipertrofia muscular pela estimulação de vias de síntese proteica. Portanto, se mais saudável significa melhor contratilidade e melhor contração mais força e se correr exige força e contração muscular não percebo porque é que melhorar a força pode ser prejudicial ao rendimento da corrida. 

Conclusão 

O ato de correr é, portanto, um jogo de forças: forças externas provocadas pelo impacto e forças internas. Há necessidade de haver controlo e gestão por parte do sistema neuromuscular para controlar e estabilizar os eixos articulares. “A musculatura humana é responsável por negociar com as forças que chegam as articulações.” (Lucas Leal e col.) 

Através do treino de estimulação/otimização neuromuscular, conseguimos promover melhor contratilidade, melhor controlo dos eixos articulares e melhor tolerância dos nossos tecidos ao esforço exigido. Podemos assim comprovar que a nossa saúde articular, depende fundamentalmente da capacidade e tolerância de gerar força por parte dos músculos. “É fundamental saber se a ativação dos músculos é a mais adequada e se há controlo suficiente para manter a integridade articular.” (Lucal Leal e col.) 

Não restará dúvidas que a força é um componente necessário à função motora. Mais e melhor capacidade motora de cada músculo irá melhorar a função integrada do movimento de corrida. “A interação entre as forças que entram em contacto com o corpo e as forças que o próprio corpo gera é a chave para garantir a motricidade humana. (Lucas Leal e col) 

Apenas deixo um alerta: o treino de força deve respeitar o princípio biológico da individualidade e com recurso às ciências que estudam o corpo humano e às forças que nele atuam, tais como o biomecânica, anatomia e fisiologia articular, muscular e neural.