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O exercício com uns novos olhos

Na área do exercício físico, mais especificamente no treino personalizado, nem sempre se dá a devida atenção a ciências como a Física e a Biomecânica. A Biomecânica usa os princípios da Física para estudar como as forças interagem num corpo vivo e um dos seus ramos talvez menos explorados é a Mecânica do Exercício.

Saber analisar e manipular estrategicamente as forças aplicadas a um corpo e entender a tolerância do organismo a essas forças é determinante para uma prática de exercício mais eficiente e segura. 

Forças e Vetores  

Podemos definir força como uma grandeza física capaz de produzir mudanças numa estrutura (agente de mudança). Do ponto de vista da Mecânica do Exercício referimo-nos a alterações no estado do movimento. Para ser quantificada, a força tem de entrar em contacto com um corpo (resistência) e é sempre representada por um vetor de força.  

Um vetor representa: 

  • o ponto de aplicação no objeto que sofre o puxão/empurrão 
  • a direção e sentido da força 
  • a magnitude da força (comprimento do vetor) 

Forças internas e externas 

As forças que atuam para mover e estabilizar o sistema músculo-esquelético podem ser divididas em internas e externas. As primeiras são produzidas a partir de estruturas localizadas dentro do corpo humano (principalmente pela ação dos músculos); as forças externas são produzidas pelas forças que atuam fora do organismo, normalmente com origem na gravidade (força gravitacional) ou numa carga externa (pesos livres, bola medicinal, barra livre…). Num caso ou noutro, o que realmente importa é que o profissional seja capaz de compreender e analisar o impacto dessas forças (internas ou externas) sobre as articulações onde atuam, bem como o efeito nas diferentes partes do tecido conectivo (tendões, ligamentos…).  

Diferença entre carga e resistência 

É muito comum na área do exercício físico usar os termos carga e resistência como sendo a mesma coisa. Contudo, tal não sucede. Enquanto a carga é simplesmente a força que se aplica a uma estrutura (haltere, elástico, cabo, ...), a resistência é uma força que produz movimento rotacional em torno do sistema de alavancas articulares, ou seja, é a força que se opoe à ação muscular em torno do eixo de rotação. Isto significa que uma carga pode não provocar resistência no momento em que não produz movimento ou potencial movimento sobre a articulação. 

Movimento rotatório nas articulações 

Conceitos de Momento de uma Força (Torque) e Braço de Momento  

O movimento rotatório é o movimento de um objeto em torno de uma interrupção fixa que descreve um percurso circular. No corpo humano, o movimento articular é essencialmente deste tipo, ocorrendo nas diferentes articulações nos eixos de rotação. Entendemos como eixo de rotação a linha imaginária onde tem origem a interrupção e o local onde se produz o movimento rotatório. 

Neste seguimento parece-nos fundamental abordar os conceitos de torque e braço de momento, de modo a perceber como estes devem ter um papel relevante na hora de elaborar os exercícios de treino. O momento de força ou torque (T) é o efeito de rotação de uma força, ou seja, o torque é a força que causa (ou tenta causar) movimento de rotação em torno de um eixo. Os músculos e a gravidade estão constantemente a competir pela dominância do torque sobre o eixo de rotação nas articulações. A direção da rotação de um osso sobre uma articulação pode indicar o torque dominante. Para calcular o momento de uma força, multiplica-se a força (F) pelo braço de momento (BM): T = F × BM. O torque é, portanto, diretamente proporcional (para uma mesma força) ao braço de momento. 

Já o braço de momento (BM) mede as caraterísticas mecânicas de uma força aplicada na sua ação de provocar rotação sobre um eixo. É um método gráfico do cálculo trigonométrico, que expressa a vantagem mecânica que pode ter uma força aplicada numa articulação no movimento rotacional. Para visualizar o braço de momento, cria-se uma linha reta perpendicular à linha de força que passe no eixo de rotação da articulação. 

Nas imagens abaixo vemos um exercício de flexão do cotovelo com haltere no plano sagital, eixo látero-medial (círculo vermelho). A linha azul representa o braço de momento, enquanto a linha verde mostra-nos o vetor da resistência. Esta resistência tenta provocar torque para extensão do cotovelo, daí a necessidade de haver oposição dos flexores em ambas as imagens. Esta é a razão pela qual o exercício é indicado para trabalhar os músculos flexores do cotovelo. Outro aspeto que podemos concluir, é que a resistência pode variar ao longo da amplitude do movimento. Na imagem da direita o torque é superior, já que o braço de momento é maior.  

Este exemplo mostra-nos como é essencial ter em consideração estes conceitos no momento da elaboração e monitorização de um exercício. Criar contextos de estimulação adequados a cada pessoa deve ser uma preocupação do profissional da áera do exercício físico. Só assim podemos dizer que o exercício e o processo de treino vão ao encontro das suas capacidades e particularidades.  

Conclusão 

Um maior conhecimento da Mecânica do Exercício, do modo como as forças se criam e as suas implicações no corpo humano poderá ajudar os profissionais da área do exercício a ver para além dos mitos existentes e com uns novos olhos, adotando estratégias que vão sempre ao encontro da individualidade que cada pessoa apresenta. 

Bibliografia 

Neumann, D. (2009). Kinesiology of Musculoskeletal System. 2nd Edition. Mosby 

Leal, L. (2014). Fundamentos de la Mecánica del Ejercicio. 2nd Edición. Resistence Institute.