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Pela boca de um CrossFiter…

Há três mitos à volta do CrossFit que cansam qualquer treinador desta modalidade: 

  1. A ideia de que todos os praticantes ficam super musculados (eles e elas); 
  2. A ideia de que todos os praticantes, mais cedo ou mais tarde, se lesionam; 
  3. A ideia de que não se é suficientemente fit para se iniciar no CrossFit. 

Em relação ao primeiro é simples: cada pessoa vai responder de acordo com as suas necessidades. Se precisa de perder gordura é isso que vai perder. Se for fraca, vai ficar mais forte. Se não tiver resistência, vai ganhá-la. Se estiver demasiado “presa” ou tensa vai soltar-se e libertar-se. Os corpos mais definidos resultam de muitas horas de treino extra. Muito para além daquilo que a grande maioria dos praticantes algum dia fará. 

Quanto às lesões a contraposição é ainda mais simples! Corpos adultos que a certa altura das suas vidas resolvem assumir comportamentos mais saudáveis trazem já consigo mazelas instaladas de várias décadas de maus tratos:  

  1. Padrões de vida altamente sedentários,  
  2. Nutrição escassa em alimentos e rica em produtos alimentares processados,  
  3. Poucas horas de sono e /ou de fraca qualidade,  
  4. Incapacidade de gerir e rentabilizar o tempo,  
  5. A perícia na construção de obstáculos a opções de vida mais saudáveis 

Estes podem ser alguns dos fatores que justifiquem o estado de debilidade generalizado das nossas populações. 

Assim que estes frágeis organismos começam a mexer, entram necessariamente em zonas de desconforto. O problema do ombro que se queixa porque se pendurou numa barra, ou do desatino de tentar conseguir três treinos semanais, são exemplos do custo de uma resolução: “quero ser mais feliz!” E será assim durante algum tempo, até que passem a ser “não problemas”. O ombro já forte, móvel e reabilitado funciona e a nova rotina até já permite treinos diários. 

A evolução humana resulta do constante desafio das nossas capacidades. A vida nunca nos foi confortável mas antes intensa, desafiante, imprevisível e sensitiva. Um enorme contraste com a atual passividade, inatividade, solidão, falta de esperança, conformismo, incapacidade de sonhar e de expressar, falta de contacto físico e emocional e de um vocabulário de movimento assustadoramente limitado. 

Sob a ilusão de que a vida é um stress e de que todas as pessoas andam demasiado tensas, o luxo e o super conforto é globalmente valorizado. Agora, imaginem que existia em nós uma predisposição/atração para o desconforto? Poderá ser este um dos alicerces fundamentais da influência da dinâmica das Boxes nos seus membros e comunidades? 

Quem nos chega de ginásios ou health clubs geralmente conta a mesma história: “comecei a fartar-me sempre dos mesmos exercícios” (Carla Cameira). “Os meus treinos eram sempre monótonos e mesmo apesar de tentar adaptar e pedir ajuda aos PT's, a ajuda acabava sempre com alguém a vender-me aulas privadas com PT e não propriamente a dar-me motivação ou a "puxar" por mim.” (Miguel Vilkova). Na Box, um treinador não deve orientar mais do que 12 a 15 atletas. As aulas mais preenchidas exigem a presença de mais treinadores e os “(treinos) são lecionados com praticamente o mesmo grau de atenção individual de uma sessão de treino com PT .” (Malvarez). Além disso, “sinto mesmo que estou a partilhar os treinos (com os restantes atletas). E isso nunca me condiciona, só me melhora. No ginásio, mesmo nas aulas de grupo, parece que estamos sozinhos.” (Fábio Ladeiras) 

Atletas de outras modalidades reconhecem rapidamente a influência dos treinos da Box: “Foi logo uma paixão pelo tipo de treino variado, completo, sempre intenso e encontrei um excelente aliado para complementar os meus treinos de corrida. Fez-me sentir bem mais preparado para enfrentar provas longas, ao nível do reforço muscular e prevenção de lesões.” (Fábio Ladeiras). “Apesar de, regra geral, uma mensalidade de CF ser muito mais cara que a de um ginásio normal, os dividendos retirados de um e outro compensam essa diferença em larga medida.” (Malvarez) “Na Box os nossos treinadores, para além de nos ensinarem, preocupam-se e puxam por nós quando mais precisamos. Conhecem os nossos pontos fortes e fracos, melhor que nós alunos, e sem eles o progresso não seria tanto.” (Pedro Marques) 

Nos casos mais sedentários a chegada à Box vem motivada pelo exemplo de um familiar, amigo ou colega: “uns meses depois encontrei-o e estava espetacular. Tinha perdido imenso peso, mas estava com ótimo aspeto. Até parecia mais novo (…) tive que vir experimentar!” (Tiago Vila). E acabam por ficar por se depararem com uma intervenção aos mais variados níveis: “(…) melhorei em muito a alimentação - redução drástica de alimentos processados, alimentação mais natural mesmo nos suplementos alimentares.” (Rafael Camacho) 

Quem me conhece, sabe que não sou aquela treinadora que diz o que fica bem, mas aquilo que considero importante ser ouvir e interiorizado. Se não faz é porque não quer fazer e então há que assumi-lo. Porque só aí poderá mudar o seu comportamento, passar a querer e então começar a tentar. Na Box onde trabalho não escondemos a ninguém que os primeiros tempos são duros a vários níveis. “Os meus primeiros dias na box foram de aprendizagem e de tomada de consciência das minhas limitações. Adoro todo esse processo de aprendizagem e superação.” (Roberto Mariano). “(…) era incrível ver o que os outros faziam, força, destreza, resistência, técnica. Achava impossível realizar os WOD, mas incrivelmente (condicionado ou não) chegava ao fim.” (Rafael Camacho). “Assim que fiz a primeira aula experimental tive logo vontade de me inscrever, apesar de estar lesionado e limitado para certos exercícios. Mas senti que era mesmo isto que queria!” (Jorge Almeida).“ “(…) desde o primeiro contacto e desde o primeiro dia de treino que me sinto em "casa". É sempre difícil entrar num ambiente desconhecido e é "pior" quando não se tem muita preparação, neste caso, física.” (Fernando Costa). 

A dureza da nossa intervenção não abranda. São antes os nossos atletas que se tornam mais capacitados e prontos para qualquer desafio. Em poucos meses assistimos ao renascimento e à reconstrução de tanta gente. Acordam capacidades esquecidas, adquirem outras novas e passam a destruir as barreiras que os limitam há uma vida inteira. 

“A camaradagem, espírito de grupo que se cria numa box, encabeçado normalmente pelos treinadores, é um elemento fulcral para o aumento da confiança em nós próprios e com isso galgar patamares de evolução técnica e física.” (Malvarez) “(…) na minha vida posso afirmar que (a Box) reforçou a minha maneira de ver o mundo e de enfrentar os problemas e contratempos. Passam a existir desafios  que são enfrentados do mesmo modo que  aceito um WOD: parece impossível mas não é, tem de se fazer. Um passo de cada vez e desmembramos o monstro.” (Luisa Sousa) “(…) para além das mudanças fisiológicas (…) deixei de usar a frase “não consigo” ou “impossível”. Enfrento os desafios com muito mais confiança e perseverança.” (Rafael Camacho) “Não desisto tão facilmente das coisas. O Crossfit fez-me ter mais vontade de terminar as coisas, de lutar e não desistir tão facilmente. E aguentar melhor a dor e abraçar mais o estado de desconforto em prol do sucesso.” (Tiago Graça) “Num ponto de vista mais amplo sinto que o CF possibilita-nos encarar determinadas tarefas com mais confiança e energia.” (Malvarez). “A minha noção de 'fit' mudou, pois não se trata só de parecer 'fit', é também de saber usar esse corpo 'fit'.” (Pedro Marques). “E o melhor de tudo isto é poder partilhar todas estas emoções, aprendizagens e ganhos com o meu namorado. Posso dizer que o CrossFit ainda nos aproximou mais. A relação ficou mais forte.” (Juliana Malagutti). “Fico feliz por ter feito essa escolha, pois lá ganhei uma segunda família (…) isto não seria possível sem os treinadores, e isso é também algo que me manteve no CrossFit e na box". (Pedro Marques) 

Se as Boxes podem ser opções interessantes para promover a saúde e a qualidade de vida? Indiscutivelmente!