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PT @ Primum non nocere

O exercício físico tem sido considerado como um dos meios mais eficazes na promoção de saúde e bem estar das populações numa ampla conceçãoo. Mais do que ter anos de vida, a importância de ter vida nos anos é inegável. O “anti-aging” e a qualidade da longevidade são cada vez mais valorizados. O exercício devidamente personalizado, tem sido um modo fundamental de prevenção e consequente promotor da qualidade de vida, tendo um papel terapêutico e coadjuvante no tratamento de diversas patologias.

Atualmente assistimos ao início da criação de sinergias e “pontes” entre a medicina e o Personal Trainer (PT). Tem sido uma parceria muito interessante e com enorme potencial pela frente. Para garantir resultados de sucesso com qualidade, o processo formativo do técnico de exercício físico deverá alicerçar-se numa consciência de não-maleficência. Elevar esta “cons-ciência" mostra-se uma crescente e séria necessidade, visando otimizar a performance da motricidade dos respetivos clientes.

A arte de especificar e respeitar o princípio da individualidade é fundamental para ajudar realmente a saúde das pessoas. O treino personalizado deverá ser, portanto, um processo sustentável, com "a dose certa e o princípio ativo apropriado”. Acima de tudo, saúde! 

Neste sentido surge a abordagem com o Primum non nocere, (do latim) significa "primeiro, não prejudicar" e remete-nos para o século III a.C. ao famoso fragmento do juramento bioético do pai da medicina - Hipócrates. Analogamente, deverá ser um conceito estruturante no contexto profissional do PT e que implica um profundo respeito pelos complexos sistemas biológicos do corpo humano.

Operacionalizar tal complexidade pressupõe a integração de várias áreas de conhecimento científico que passam por dominar as regras do corpo. O personal trainer tem na sua essência conhecer a individualidade física dos respetivos clientes. É imperativo motivar a qualificação da profissão no sentido de alcançar hiperespecialização e “expertise”; fomentar a paixão por estudar, pesquisar, observar, descobrir a nossa multidimensionalidade e sua teia de inter-relações, e humildemente aceitar os limites do nosso conhecimento. O longo caminho da mestria tem como base as áreas de biomecânica, física, anatomia e fisiologia neural, articular e muscular. O PT deverá reunir condições para um exercício físico responsável pela otimização da condição física, atenuação de sintomas, aceleração da recuperação e favorecimento da performance e qualidade de vida - atletas ou pacientes. 

Tudo isto é altamente inter-individual, carece de permanente avaliação e processamento das respostas aos diversos estímulos. Cada caso é um caso a avaliar, respeitar e especificar o modo de exercício. Devemos questionar seriamente e sempre o seu resultado: excessivo? insuficiente? ou adaptativo? Só inferindo disponibilidade, controlo e tolerância enquanto sistema neuro-músculo-articular é que teremos a oportunidade de obter um solução  adequada.

Para tal, temos que verificar várias vezes a disponibilidade articular do cliente, avaliar a sua capacidade contrátil (grau a grau), conhecer e respeitar essas funcionalidades e diminuir significativamente a magnitude da resistência quando pedimos manifestação de força em posições próximas dos extremos. Trata-se de saber elevar o potencial funcional e estrutural do cliente, com um estratégico processo mental, condicionante crítica para as adaptações pretendidas no corpo humano.

De forma a nos distanciarmos de um fitness iatrogénico (conceito explorado por Samuel Corredoura, na revista Gym Factory nº 12), devemos identificar, durante toda e cada sessão, a qualidade das amplitudes do movimento voluntário do aluno. Por iatrogenia entende-se "lesão, processo patológico ou alteração orgânica que é provocado pelos médicos ou pelas suas atuações e tratamentos" (in Dicionário infopédia de Termos Médicos, 2016).

Na outra “face da moeda”, temos o desporto e outras modalidades, com regras e objetivos externos que não contemplam uma especificidade individual e, consequentemente, não resultam em melhoria do desempenho da nossa motricidade. Para o desporto, a saúde não é condição necessária e, por outro lado, o verdadeiro exercício físico visa melhorar a saúde à la longue.

A atual conjuntura dos ginásios sugere uma reflexão sobre a relação entre objetivos, necessidades e expectativas dos clientes. Qual o custo fisiológico de atingir os seus objetivos com as capacidades presentes? Como se articulam as suas necessidades com as soluções propostas pelo PT? Apesar dos estatutos de profissão não permitirem sacrificar o corpo pelo resultado, o sector apresenta-se muito invasivo, com falta de soluções para a saúde motora, mostrando uma enorme inércia para mudar de visão e evoluir para um novo mindset: menos lesões e melhor desempenho, onde idealmente deveríamos sacrificar o resultado pelo corpo e relativizar ao máximo o exercício à pessoa, e não o inverso. Na saúde não há competição!

Maioritariamente, a presente tipologia de intervenção, contempla uma oferta de exercícios com relação desajustada de forças internas vs forças externas (resistências), tornando-os assim potencialmente lesivos e reduzindo drasticamente o seu real potencial adaptativo. Estes são criados para todos, ajustados para poucos e consideravelmente arbitrários (prescritos e coreografados), pressupondo de forma inespecífica uma média de capacidades e necessidades. Desejo poder recomendar atividades desportivas/recreativas, aulas, treinos e momentos de lazer a todos os meus alunos, mas para tal, há que garantir uma série de condições para o corpo as tolerar. Se assim não for, as disfunções aparecem sempre.

Nesta realidade devemos aprofundar seriamente estas questões, oferecer soluções muito além de superação, “no pain no gain, one size fits all, just do it, more is better”, e permitir a criação de soluções para além da atual oferta do fitness. São evidentes as necessidades de uma nova era de exercício físico baseado numa prática mais consciente. O sector carece de ciência e reflexão, enfrentando assim uma merecida caminhada evolutiva. Esta evolução dependerá do comprometimento dos profissionais da área e não de tendências de mercado (moda), marcas, crenças e constantes inovações. Isto implica um enorme respeito pelos clientes e uma vontade intrínseca de ajudar! Enquanto técnicos de exercício físico, o nosso papel deverá centrar-se sempre como agente de saúde e bem-estar, garantindo sustentabilidade dos resultados e não o desempenho num curto prazo.

A credibilidade do sector depende desta seriedade comportamental. O PT que genuinamente se importa com a saúde dos seus clientes, trabalha motivado por aprender mais e, inevitavelmente, depara-se com a necessidade de migrar a sua visão para uma intervenção focada no desempenho funcional interno desse cliente em particular. 

A verdadeira viagem de descoberta não consiste em procurar novas paisagens, mas sim em ter novos olhos.” - The Prisoner, vol. 5, Marcel Proust (1923).

O desafio é sair das nossas disciplinas de estudo, integrar e dialogar com outras áreas de conhecimento. O exercício físico do futuro passará por uma nova contextualização deontológica e redefinição de prioridades, tendo como principal foco as melhorias reais da saúde. 

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