ptenfrdeites

O curioso caso da torneira que pingava no ginásio

Na nossa empresa temos uma cozinha bem ampla que serve para o almoço da equipa. Numa época éramos uns 15 e obviamente usávamos muito a pia da cozinha. Um dia a torneira começou a dar problemas. Ela continuava a pingar depois de fechada. Parecia que a torneira tinha vida própria.

Vivíamos os tempos difíceis da crise de abastecimento de água em São Paulo em que a multa era alta para quem ultrapassasse um determinado consumo. Além disso, mesmo sem crise, não faz sentido um vazamento. Para piorar, havia sido contratada uma nova controller e queria mostrar serviço. Nada melhor para uma controller mostrar seus talentos "controladorísticos" do que uma torneira estragada.

Imediatamente a controller se apressou a enviar mensagens para o e-mail de todos para que prestassem mais atenção ao fechar a torneira. E a orientação foi para usar mais firmeza na hora de apertar. Mais força. Torcer mais. 

Nós apertávamos mais, torcíamos mais. A empresa estava toda comprometida com o combate ao vazamento. Era engraçado ver as pessoas cruzarem-se na cozinha e alertar para que apertasse bem a torneira. 

Será que não está na hora de acabar o que todas as vezes começa? Será que não está na hora de fazer o que sua empresa precisa e não somente o que gosta de fazer? 

Mas a torneira era maldosa. Aceitava o aperto na hora, mas bastava perceber que estávamos longe dela para sordidamente começar a gotejar. Era um inferno.

Tínhamos que dar um sem número de voltas até fechar completamente. As meninas até já pediam ajuda aos rapazes pois não tinham forças para girar a maldita torneira. 

E a torneira continuava a vazar.

Um dia fui até a cozinha e lá estava a controller sentada com o seu computador a trabalhar. Ela não confirmou, mas tenho certeza que estava lá à procura do maldito funcionário que não cumpria a ordem de apertar bem a torneira.

A situação chegou a um nível insuportável. Enquanto umas 6 pessoas da equipa estavam a almoçar e a conversar animadamente, a controller entrou na cozinha e a torneira estava a pingar. 

Há quanto tempo insiste em reuniões que não servem para nada? Há quanto tempo diz que vai ser mais exigente com todos e amolece no outro dia? Há quanto tempo não treina a sua equipa e no outro dia confirma se estão a fazer o que foi treinado? Quanto tempo mais vai ficar a reclamar que a mão-de-obra está difícil e não faz nada para mudar isso? Quanto tempo mais vai colocar a culpa no governo pelos resultados da sua empresa?

Naquele dia foi tomada a decisão mais drástica. Colocou-se um cartaz na parede escrito em letras maiúsculas como se estivesse gritando:

a partir de hoje, o funcionário que não fechar a torneira até que a mesma pare de pingar será responsabilizado severamente.

Houve gente que deixou de usar a torneira, houve gente que deixou de almoçar na empresa e alguns até fechavam a torneira, saíam, esperavam um pouco e voltavam como que a fazer uma surpresa para a torneira maldita.

Mas a torneira continuava a pingar.

Um dia chegamos à empresa e havia um cartaz diferente. caros, descobri que ao fechar a torneira completamente, deve-se girar uns 15 graus no sentido contrário e assim a torneira pára de pingar.

Festa na empresa. Funcionava mesmo! Fechava-se completamente e depois girava-se um pouco no sentido contrário e voalá, a torneira fechava.

Sensacional. 

Felicidade total na empresa, a controller caminhava pelos corredores, feliz e cheia de orgulho por ter descoberto a solução final do grande problema. Confesso que o clima na empresa melhorou muito neste período. 

Mas a torneira não era fácil de ser vencida. Ela voltou a pingar. A solução genial já não funcionava. Caos na empresa, stress, nervosismo, expectativa de punições. Chegamos a falar em demissões por justa causa.

Na empresa havia um rapaz sossegado, sempre solicito com todos, falava muito pouco. Entrava no trabalho, cumprimentava todos, sentava-se no seu canto com os seus fones e fazia suas tarefas. Não falávamos muito com ele nem ele connosco. 

Uma vez, no meio do pânico e da desesperança de todos, especialmente da controller, ele diz: não seria mais fácil consertar a torneira?

Esta frase foi como uma chicotada, um murro na cara da controller. 

Como é que ninguém pensou nisso? Consertámos a torneira e tudo ficou resolvido.

Na sua empresa há "uma torneira que pinga"? 

Na sua empresa tem um colaborador que nunca faz o que tem de ser feito e por alguma razão fica retardando a sua demissão? Na sua empresa há alguém que só faz as coisas quando está por perto? Na sua empresa há algum processo que, de tanto se repetir, ninguém olha mais para ele, apesar dos maus resultados que gera? Na sua empresa há um dono, um gerente, um líder que aceita "gambiarras" em vez de investir numa mudança rápida e consistente? 

Há quanto tempo insiste em reuniões que não servem para nada? Há quanto tempo diz que vai ser mais exigente com todos e amolece no outro dia? Há quanto tempo não treina a sua equipa e no outro dia confirma se estão a fazer o que foi treinado? Quanto tempo mais vai ficar a reclamar que a mão-de-obra está difícil e não faz nada para mudar isso? Quanto tempo mais vai colocar a culpa no governo pelos resultados da sua empresa? Aquele aparelho de som funcionando mais ou menos, aquele professor que não usa microfone nas aulas, aquele relatório que pede e não vem, aquela aula com os mesmos 4 clientes, aquela consultora que não faz telemarketing, aquele professor que só pensa em personal training, aquele tipo da manutenção que não cumpre prazos, aquele torniquete que funciona quando quer. Tudo isso vai durar até quando? 

Será que precisa mesmo aceitar isso? Será que já não esperou demasiado para colocar em prática, de uma maneira ou outra, o que aprendeu no curso? 

Será que não está na hora de acabar o que todas as vezes começa? Será que não está na hora de fazer o que sua empresa precisa e não somente o que gosta de fazer? 

Será que não está na hora de começar a planear melhor, se organizar melhor, gerir melhor? Será que não está na hora de parar de colocar a culpa na concorrência quando todos sabem que o problema está dentro da sua empresa? Ou dentro de si?

Será que não está na hora de dar um murro na mesa e dizer basta? Será que não está na hora de parar de aceitar que a realidade tem que ser assim mesmo? 

Será que um ginásio tem de perder tantos clientes assim todos os meses? Será que a organização de eventos de retenção é impossível de gerar bons resultados? Será que não está a tentar tirar coisas de uma "torneira" que não dá para recuperar?

Quanto mais dinheiro vai gastar a comprar equipamentos novos quando a solução é os professores fazerem bem feito o que quer que eles façam? Quanto tempo mais vai atrasar as decisões? Quantas aulas mais vão ser lançadas no mercado para entender de uma vez por todas que a solução da sua empresa não é uma aula nova mas sim um dono competente, ativo e presente?

Acho que está na hora de trocar ou consertar umas torneiras na sua empresa?

Não tente mais dar um jeitinho, não tente economizar usando inutilidades. Não aplique na sua empresa o contrário do que exige aos seus fornecedores e consultores.  

- Aqui nós temos qualidade. 

Pare! Pare de remendar as torneiras de sua empresa.