ptenfrdeites

Suplementação desportiva. Seremos todos atletas?

A utilização de suplementos alimentares não é propriamente uma novidade nos dias de hoje.

Nos últimos tempos temos verificado um crescimento muito acentuado do consumo deste tipo de substâncias. O que prometem ao consumidor não varia muito de suplemento para suplemento: uma saúde perfeita, uma pele perfeita, um corpo perfeito, em suma, uma vida perfeita. Mas, na realidade, o que são suplementos alimentares e o que é que oferecem de tão perfeito? 

Em Portugal, está definido pelo (Artigo 3º b) do Decreto-Lei nº 118/2015, que os suplementos alimentares são: “os géneros alimentícios que se destinam a complementar e ou suplementar o regime alimentar normal e que constituem fontes concentradas de determinadas substâncias nutrientes ou outras com efeito nutricional ou fisiológico, estremes ou combinadas, comercializadas em forma doseada, tais como cápsulas, pastilhas, comprimidos, pílulas e outras formas semelhantes, saquetas de pó, ampolas de líquido, frascos com conta-gotas e outras formas similares de líquidos ou pós que se destinam a ser tomados em unidades medidas de quantidade reduzida”

A Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) é a autoridade competente, responsável pela definição, execução e avaliação das regras relativas à notificação de um Suplemento Alimentar aquando da sua comercialização, bem como pela definição das obrigações dos operadores económicos, nesta matéria. Com a entrada em aplicação do Regulamento (UE)  nº  609/2013,  a  20  de  julho  de  2016, foram introduzidas algumas alterações que definiram, entre outras coisas, que: “os produtos destinados a desportistas que se apresentem em forma doseada, mas em unidades medidas superiores a 25g ou 25 ml, e/ou que, no conjunto da toma diária forneçam mais do que 50Kcal diárias, são enquadrados como géneros alimentícios comuns”. Deste modo, não é obrigatória a notificação à DGAV aquando da sua colocação no mercado. No entanto, existem diversos alimentos para desportistas que se enquadram como suplementos alimentares dado estarem fora destes parâmetros. 

Assim, sendo regulados como alimentos ou não, os suplementos irão ser controlados essencialmente no que diz respeito à informação que disponibilizam na embalagem, não sendo obrigatório que uma entidade como o Infarmed, em Portugal, ou a EMA (Agência Europeia do Medicamento) ou a FDA (Food and Drug Administration) nos Estados Unidos da América, avalie ou teste estes produtos antes de serem lançados no mercado. 

Com este enquadramento legal é fácil perceber porque é que muitas destas empresas não investem em estudos científicos mais rigorosos – que recorram a uma amostragem credível e a períodos de testes de utilização mais longos – e que seriam capazes de oferecer resultados mais definitivos sobre o efeito destas substâncias no organismo humano. 

Neste sentido, enquanto profissionais de saúde na área da nutrição (clínica/desportiva), deparamo-nos diariamente com as perguntas dos nossos alunos, doentes ou clientes acerca dos inúmeros suplementos existentes no mercado. Após uma cuidada investigação, concluímos frequentemente que a evidência científica não nos permite afirmar categoricamente que a substância X ajude a “queimar gordura” ou que a substância Y promova a hipertrofia muscular, embora em casos muito específicos possam oferecer uma vantagem de 0,1%, o que poderá ser importante em alta competição, por exemplo.

O enquadramento ambiental e real de cada indivíduo irá sempre condicionar os resultados da utilização dos diversos suplementos, seja pelo tipo de alimentação que faz em paralelo, pelo ambiente no qual se insere, pelo seu padrão de sono e por todos os parâmetros bioquímicos e genéticos que condicionam a resposta a uma determinada substância. 

Alguns suplementos oferecem um contributo positivo, especialmente em atletas. Contudo, existem inúmeras substâncias que, além de não apresentarem qualquer vantagem, já se comprovou que poderão provocar efeitos adversos, tais como: a desregulação dos níveis de diversos elementos químicos no organismo, situações de toxicidade hepática ou renal, alterações do ritmo cardíaco, entre outros. Alguns destes efeitos adversos devem-se igualmente à fraca qualidade da matéria-prima utilizada ou dos processos de controlo de fabrico (ocorrendo por vezes contaminações por fungos ou bactérias aquando da sua produção), à utilização de substâncias proibidas e também às interações com outros suplementos e/ou medicamentos ingeridos. 

Muitos dos consumidores de suplementos são frequentadores de ginásios/academias e habitualmente baseiam-se nas opiniões de colegas de treino, instrutores ou em informações veiculadas por alguns sites e redes sociais. Mas será que todos necessitam verdadeiramente de suplementação? Será que conseguiriam atingir os seus objetivos pessoais recorrendo a uma melhor regulação da alimentação e do seu plano de treino? 

Quando falamos em atletas de alta competição ou em técnicos de exercício físico que ao longo do dia irão ministrar diversas aulas fisicamente extenuantes, como por exemplo aulas de Spinning ou aulas de Body Pump, não existem grandes dúvidas: uma boa performance exigirá sempre uma alimentação adequada e, muitas vezes, pode justificar-se o recurso a suplementos de boa qualidade.

Para alguns dos utilizadores comuns, o simples facto de se passearem no ginásio com uma bebida fluorescente num “shaker” já contribui para se sentirem mais próximos da sua versão “Super-homem” ou “Super-mulher”, até mesmo sem treinar regularmente. Porém, no que toca à exigência para o cliente médio do ginásio, uma hidratação correta (antes, durante e após o treino) e uma alimentação bem orientada nas diferentes fases do esforço é mais do que suficiente para atingir as metas pessoais e para manter um estilo de vida saudável e equilibrado. Contudo, quando os objetivos e a intensidade de treino aumentam para níveis extremamente elevados, semelhantes aos da competição, poderemos pensar em utilizar alguns suplementos, sempre com o acompanhamento de um profissional de nutrição com bons conhecimentos na área da nutrição desportiva.

É importante pensarmos em bases sólidas, num plano de treino bem elaborado e numa boa alimentação, que pode ser complementada com dois ou três suplementos de boa qualidade, se necessário, mas nesta questão da suplementação, como em tantas outras da nossa vida a velha máxima “keep it simple” faz todo o sentido.