ptenfrdeites

A melhor “postura” a adotar

Já alguma vez lhe disseram que tem uma má postura? Que não anda “direito”, que tem os ombros demasiado para a frente ou que a cabeça está um pouco inclinada à frente?

A postura é um dos temas mais em voga no mundo do exercício. Criaram-se uma panóplia de cursos, livros e instrumentos de forma a melhorar e “corrigir” uma suposta má postura. 

Em primeiro lugar importa definir o que é postura. Segundo Iqbal (Mechanisms and models of postural stability and control, 2011), a postura humana refere-se à disposição estática dos membros e partes corporais, numa determinada posição que poderá ser a de sentado, em pé ou deitado. A postura estática implica um equilíbrio das forças que interagem com o corpo que se encontra posicionado sobre a sua base de suporte (a área de superfície debaixo dos pés). A transição entre posturas requer movimento. Assim, postura é apenas uma posição, ou seja, a posição a partir da qual se irá iniciar o movimento. 

Quando se inicia movimento, a postura dinâmica ocorre devido ao equilíbrio de forças e movimentos (incluindo a inércia dos nossos segmentos corporais) dos membros e partes corporais em movimento. Neste contexto, o centro de massa não se encontra sob a base de suporte. Por exemplo, durante o andar este encontra-se fora da base de suporte 80% do tempo (Iqbal, K., Mechanisms and models of postural stability and control, 2011). 

O movimento humano está sujeito a condicionantes internas e externas. As internas estão relacionadas com o próprio corpo: configuração geométrica dos segmentos corporais, características inerciais desses mesmos segmentos e forças internas associadas à contração muscular. As condicionantes externas são causadas pelas forças gravitacionais, forças reativas das superfícies de contacto, acelerações impostas por objetos e obstáculos (Massion, J., Movement, Posture and Equilibrium: Interaction and Coordination, 1992).

Desta forma, são vários os aspetos que condicionam a postura humana. O que é então uma má postura? 

Não existe na literatura científica uma definição de má postura. Por alguma razão, em certas correntes do exercício, por mera crença, definiu-se a postura correta como alguém muito direito em que é possível traçar uma linha reta que atravessa a orelha, ombros, anca, joelho e tornozelos. Caso seja detetado um desvio a esta suposta postura, a pessoa avaliada é classificada como tendo “desvios posturais” e são-lhe prescritos “exercícios corretivos”. A verdade é que são poucas (ou quase nenhumas) as pessoas que encaixam neste modelo de postura. E como é que se sabe que uma postura, supostamente incorreta, não foi a melhor solução que o nosso sistema nervoso orquestrou? Ou se o corpo da pessoa não se encontra em equilíbrio com aquela postura?

De forma a complementar este raciocínio, considere o leitor a diferença que existe na arquitetura óssea individual entre seres humanos. Em aulas ou formações de anatomia cadavérica é possível notar que não existem ossos idênticos na sua dimensão e geometria, apesar das parecenças na forma. Será muito difícil conseguir encontrar duas colunas dorsais idênticas em seres humanos diferentes. Nesse sentido, cada pessoa terá uma cifose dorsal distinta das demais. O reconhecimento da variabilidade na anatomia individual de que cada pessoa é, assim, um fator determinante para a alteração da consciência do profissional de exercício.

Será importante, também, reconhecer que existe uma lacuna na formação dos profissionais de exercício ao não disporem nos seus currículos formativos de aulas de anatomia cadavérica. Este facto poderá levar a considerações do corpo e do movimento articular como um modelo generalizado ao invés de considerar a sua individualidade. A título de exemplo, um indivíduo cuja curvatura da coluna dorsal esteja aparentemente acentuada devido à sua configuração óssea (entre outros inúmeros fatores) pode apresentar um grau de extensão da coluna aparentemente mais reduzido. Dada a variabilidade na arquitetura óssea, é importante que o profissional de exercício tenha uma abordagem cautelosa ao não tentar forçar a extensão de modo a não violar seriamente a sua tolerância fisiológica. 

Subsiste ainda uma grande associação entre postura e dor. Numa investigação de Barrett e colegas (Is thoracic spine posture associated with shoulder pain, range of motion and function? A systematic review, 2016), onde estes reviram dez estudos que tentaram relacionar uma potencial acentuação da cifose dorsal com dor no ombro, foi concluído que não existia uma correlação significativa. Outro estudo mais antigo de Grob e colegas (The association between cervical spine curvature and neck pain, 2007), não encontra correlação entre potencial aumento da curvatura da lordose cervical e dor no pescoço. 

O sistema nervoso central sabe muito mais sobre o nosso funcionamento interno e como geri-lo do que nós alguma vez de fora o saberemos. Nesse sentido é desejável que os profissionais de exercício devam procurar conhecer a “tecnologia biológica” interna, aprender com ela e trabalhar com ela. Porque quanto mais se luta contra o funcionamento do corpo (baseado em crenças, mitos e teorias infundadas) mais este se irá defender de qualquer agressão da sua tolerância. Desta forma, existem claros riscos ao tentar corrigir uma estrutura que não é corrigível ou que já possa estar otimizada. 

No que respeita à avaliação da postura, Fedorak e colegas (Reliability of the Visual Assessment of Cervical and Lumbar Lordosis: How Good Are We, 2003), reuniram vários profissionais de saúde (fisioterapeutas, osteopatas, reumatologistas e ortopedistas) para analisar fotografias da postura (estática) de pacientes. Concluíram que a análise visual da cervical e lombar não é fiável. Assim, será difícil concluir, por mera observação superficial exterior, que é a postura que está a causar a dor. 

Considere o leitor, a seguinte frase de Kendal e colegas (Muscles: Testing and Function, with Posture and Pain, 2005). “A postura pode ser aparentemente muito desviada, mas mesmo assim o indivíduo pode ser flexível (entenda-se móvel, pois as articulações humana não são flexíveis, mas sim móveis) e a posição do corpo pode mudar imediatamente. Contrariamente a postura pode aparentar ser boa, mas o excesso de rigidez muscular pode limitar a mobilidade de tal forma que a posição [boa] não muda tão facilmente. A falta de mobilidade pode ser um fator muito mais significante.”

Será assim, importante que os profissionais de exercício considerem que a postura humana não deve ser avaliada à luz de uma posição estática, pois para além de não conseguirmos aferir a real dimensão das curvaturas devido a tudo o que se encontra por debaixo da pele, também a própria investigação já demonstrou que a dimensão da curvatura poderá não estar associada a dor sendo que uma observação visual do exterior não será fiável. O que poderá então fazer o profissional de exercício? Avaliar o movimento articular e registar o seu comportamento, procurando encontrar a norma para cada cliente com a qual passará a trabalhar. Para isso é fundamental obter conhecimento nas matérias inerentes à compreensão do corpo humano na sua relação com as forças externas: fisiologia articular, fisiologia muscular, fisiologia neural e biomecânica. Acima de tudo é necessário desenvolver uma cultura de humildade para com o corpo que se avalia para que não se caia no erro da observação superficial exterior. Uma pele esconde toda uma complexidade interior que não é possível aferir visualmente de fora. 

Assim, será lógico fazer de cada cliente um caso de estudo, uma constante investigação ao longo do processo de exercício. Por isso cada exercício, cada variação, cada progressão deve ser realizada de acordo com as especificidades articulares de cada pessoa. Não é recomendável tentar corrigir o que quer que seja nas articulações humanas. O profissional de exercício deve assim respeitá-las e trabalhar com o que estas têm disponível, focando-se nos motores que as movimentam – os músculos. Esta sim é a melhor postura a adotar!